terça-feira, 1 de junho de 2010

Hora do folhetim - 26

(...)
7
As tarambolas-douradas e o maçaricão-esquimó ficaram duas semanas no Orinoco e depressa voltaram a engordar. Milhares de outras narcejas povoavam a vasta pradaria, tarambolas que também tinham feito a longa viagem sobre o oceano, e ainda uma dúzia de outras espécies que tinham voado sobre terra, através das planícies da América do Norte e do istmo do Panamá. Aqui encontravam-se de novo, nos Llanos da Venezuela. Também havia esplêndidas aves dos trópicos, que nidificavam nesta altura e alimentavam zelosamente os filhos. Os ninhos das garças-brancas cobriam largas superfícies dos pântanos, junto ao rio, e as garças eram tantas que se empurravam umas às outras. A íbis vermelha, jóia das aves tropicais, voava em bandos ao longo das margens do rio, procurando alimento. De início, quando as íbis se aproximavam, pareciam sombras cinzentas; ao passarem perto, inflamava-se-lhes a plumagem vermelha; quando se afastavam, a cor desvanecia-se novamente.
Havia comida em abundância e muitas das narcejas árcticas deixavam-se ficar por aqui. Mas o maçaricão e as tarambolas, após duas semanas em que comeram e acumularam gordura, voltaram a sentir o velho impulso que as empurrava para sul. As outras tarambolas já tinham partido. Tal como no Lavrador, o bando do maçaricão foi o último a largar.
(...)

Um mundo feito à mão-15

Em França, a actividade agrícola não ocupa hoje mais do que 3% da população. Noutros países desenvolvidos é parecido.
Parece uma vitória retumbante, mas em boa verdade é uma derrota!

Planeta-Mãe - 16

(...)
ÊXODO RURAL MUNDIAL
Em França, o êxodo rural tornou-se uma tendência de fundo no início dos anos 50. Esta revolução social, inerente à construção duma sociedade industrial decidida com o plano Marshall de 1948, levou milhões de franceses a deixar as suas terras e a procurar as cidades industriais.
Este êxodo constituiu uma verdadeira subversão nos fundamentos da nossa sociedade e seus modos de vida. Em 1937 mais de 50% da população francesa vivia ainda no campo. A agricultura era então, de longe, a principal actividade do país. A maioria da população vivia no campo, não se contentando em habitá-lo. A maior parte dos habitantes, mesmo se não eram agricultores de profissão, cultivavam pelo menos uma horta. Satisfazer por si mesmo as necessidades alimentares era então uma actividade prioritária para numerosas famílias.
Nos dias de hoje, a actividade agrícola não ocupa mais do que 3% da população francesa, e é desta parte incrivelmente restrita de trabalhadores que depende a satisfação das necessidades alimentares de toda a população. Esta situação não tem precedentes na história da Humanidade. Nunca o número de pessoas que abdicaram da responsabilidade da sua sobrevivência alimentar foi tão grande, e o número de pessoas encarregadas de assumir essa responsabilidade foi tão pequeno.
Do mesmo modo, o imperialismo económico dos países ocidentais sobre aqueles “em vias de desenvolvimento” provoca a mesma revolução à escala planetária. Todos os anos milhões de pessoas abandonam a sua terra, para encher as filas da miséria urbana nos mega-bidonvilles das novas mega-cidades.
Desde 2007, pela primeira vez na história da humanidade, mais de metade da população mundial vive em cidades.
Diminui cada vez mais o número de pessoas que satisfazem por si mesmo as suas necessidades alimentares. E o êxodo rural contribui assim para o aumento da procura alimentar nos mercados mundiais. Esta tendência para o êxodo deverá prosseguir, até atingir 75% de citadinos.
Nos países em que este êxodo não se faz para bidonvilles, mas para o “melhor” do modelo social ocidental, o impacto sobre o mercado alimentar é ainda mais marcante. Com efeito, o regime alimentar destas populações muda ao mesmo tempo que o seu modo de vida.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Hora do folhetim - 25

(...)
O maçaricão sabia que, por detrás da faixa de costa com praias e estuários de rios, havia mangais pantanosos. Eles estendiam-se ao longo de 250 quilómetros, e poisar neste emaranhado era tão difícil como fazê-lo no mar alto. Assim, quando clareasse, teriam que continuar a voar em frente, até atingirem os Llanos relvados da Venezuela. As asas tinham-se tornado pesadas, mas o maçaricão ganhava altura para poder ultrapassar os montes costeiros. Era um tormento. Atravessaram os montes e o cansaço mantinha-se, crescia de repente em guinadas agudas, e fazia vibrar cada fibra dos seus pequenos corpos.
A noite estava escura como bréu. Até que a manhã rompeu finalmente, não com amarelos e vermelhos, mas com uma luz turva e cinzenta. Por baixo deles a terra era húmida e lamacenta, atravessada por rios largos, como a tundra na primavera. Tão longe quanto podiam ver, na luz cinzenta da manhã, estendia-se em todas as direcções o extenso vale do Orinoco. E continuava a chover.
O bando tinha voado quase sessenta horas seguidas, sem descanso nem alimento. Das terras da neve e da luz árctica, chegavam agora a um lugar que ressumava da exuberante vegetação dos trópicos. Diante deles havia centenas de quilómetros de terras pantanosas e de planícies cobertas de capim. Era um formigueiro de insectos, alimento mais que suficiente, que só os meses de chuvas contínuas dos trópicos podiam produzir.
O dia ficara um pouco mais claro, com uma luz matinal fosca. O maçaricão abriu as asas rígidas e mergulhou quase em picada. Deixara para trás a vastidão dum continente, desde a última vez que as suas asas tinham estado inactivas. As tarambolas seguiram-no e o bando poisou.
Nenhuma ave descansou, pois antes de mais era preciso comer. Durante cinquenta e cinco horas tiveram os estômagos vazios, tinham voado quase cinco mil quilómetros e consumiram toda a gordura que tinham acumulado no Lavrador. Dela não restava agora um único grama. Em menos de três dias, as aves tinham perdido entre 10 a 15 por cento do seu peso. Só o facto de elas serem os mais económicos consumidores de energia de todo o reino animal lhes possibilitava tal voo. Para atravessar o oceano, cada ave tinha queimado sessenta gramas de gordura. Com tal consumo de energia, um avião de meia tonelada voaria 250 quilómetros com cinco litros de combustível, em lugar dos habituais trinta e cinco.
Só descansaram depois de terem comido. Nas vastas savanas do Orinoco havia grande abundância de alimento. Assim, antes de cair a noite tropical, as aves comeram ainda uma segunda vez, durante várias horas.



O CORREDOR DA MORTE

Este é o oitavo boletim do Museu Nacional dos Estados Unidos, sobre a vida das aves norteamericanas, por Arthur Cleveland Bent.
Ordem: Limicolae. Família: Scolopacidae... Numenius borealis, maçaricão-esquimó... Não há dúvida de que foram sobretudo os abates excessivos, durante as viagens migratórias e durante o inverno na América do Sul, os responsáveis pela sua extinção. Não acredito que esta espécie tenha sido apanhada no alto mar por uma monstruosa catástrofe, que a tenha dizimado. O maçaricão possuía asas poderosas, e podia escapar a grandes tempestades, ou podia evitá-las. Além disso a sua época de migração era tão prolongada que uma só tempestade não poderia exterminar toda a espécie. Nada aponta para doenças, ou para a redução do seu alimento habitual. Há uma causa única, ele foi aniquilado pelos homens: no verão e no outono, no Lavrador e na Nova Inglaterra; no inverno, na América do Sul; e, pior que tudo, na primavera, desde o Texas até ao Canadá. Eles eram tão mansos e confiantes, tão apegados aos seus companheiros de viagem, que foram abatidos em massa, vítimas fáceis da carnificina. Estas delicadas aves deixavam atrás de si, por todo o lado, um verdadeiro corredor da morte. E ninguém mexeu um só dedo para as defender, até ser demasiado tarde...

(...)

Um mundo feito à mão-14

Dois musicantes de Palaçoulo, que acompanharam a caminhada de Alpajares.

Planeta-Mãe - 15

(...)
PONTOS COMUNS
Não é exaustiva a lista que explica as causas da baixa de produção alimentar no mundo. Elas têm um ponto comum: parecem todas condenadas a acentuar-se.
A predominância dum pensamento único, que transforma o nosso modo de vida ocidental em sinónimo de sucesso aos olhos das massas, não deixa entrever mudanças de tendência. Ao mesmo tempo que qualquer veleidade de verdadeira mudança é travada pelos poderosos lóbis industriais.
Pelas mesmas razões, os factores que explicam o aumento da procura de produtos agrícolas nos mercados mundiais sofrem as mesmas influências e oferecem perspectivas similares…

PORQUE AUMENTA A PROCURA DE PRODUTOS AGRÍCOLAS?
“Somos muito numerosos!” É o que se ouve muitas vezes da boca de ocidentais que colocam esta questão. A realidade dos factos contradiz esta ideia. Mais do que o aumento da população mundial, há factores que alimentam a alta dos preços de maneira bem mais significativa.
- O êxodo rural mundial
- As mudanças do comportamento alimentar
- A doença das vacas loucas
- Os agro-combustíveis
(...)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Hora do folhetim - 24

(...)
Ele sabia que havia ilhas além, a oeste, por baixo das espessas nuvens do horizonte. Ficavam apenas a uma ou duas horas de voo. Porém, para as alcançar era preciso seguir um rumo em que o vento soprava directamente de cauda. E isso prejudicava o voo, tanto como o vento de frente. Por isso o maçaricão mantinha a rota inicial. Ele sabia que havia de passar uma terceira noite antes que chegassem à costa. E se alcançassem terra na escuridão, numa noite cerrada e cheia de nuvens, só poderiam poisar quando os contornos dos pantanosos mangais venezuelanos e das ilhas de areia dos estuários se desenhassem na claridade da manhã.
O dia demorou muito a passar. Mas finalmente o sol mergulhou no mar das Caraíbas, e rapidamente ficou escuro, quase sem crepúsculo. As nuvens cresceram e ocultaram a lua e as estrelas. Caíram as primeiras gotas, o bando chegava aos trópicos em pleno tempo das chuvas. Era uma chuva ligeira e fina, que refrescava o ar e facilitava a respiração. E assinalava a proximidade da costa.
Voaram duas horas à chuva. O maçaricão não podia ver nada, mas reconheceu imediatamente quando deixaram o mar e se acharam sobre terra firme. Primeiro trovejou, no escuro, a rebentação, e logo a seguir surgiram as turbulências das correntes térmicas, que se elevavam do solo quente.
As aves não podiam senão continuar em frente, hora após hora. E agora, sabendo que por baixo delas se estendia terra firme, o voo tornou-se uma prova de força cruel, e cada batida de asa uma luta atormentada contra a inércia e o esgotamento. Muita energia era agora desperdiçada, uma vez que as rémiges estavam de tal modo estafadas que já não cortavam o ar como pás duma hélice. Tal como o faziam ao princípio, ao deixarem o Lavrador, com batidas ligeiras e fáceis.
(...)