quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Riba-Côa - Noitibó

Planeta-Mãe - 32

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Estas sociedades comerciais tentaculares – e sobre-endividadas – têm como clientes outras sociedades semelhantes, as da grande distribuição. Carrefour e Géant Casino, por exemplo, fazem parte das maiores capitalizações na bolsa de Paris. A sua actividade é distribuir, tornar disponível tudo o que a nossa sociedade é capaz de produzir. Mesmo se a maior parte destes grupos da grande distribuição criaram as suas próprias marcas de produtos, eles nada fabricam, limitando-se a ser prestadores de serviços: eles disponibilizam. Os produtos com as suas marcas são produzidos em fábricas que muitas vezes fabricam numerosos produtos para outras sociedades. Estas fábricas são de facto empresas de subcontratação, fornecendo vários grupos agro-alimentares. Fabricam em função do caderno de encargos que lhes é imposto, e revendem a sua produção ao preço que lhes é imposto. Sejam elas fornecedoras da marca Carrefour ou Nestlé, estas fábricas têm os seus accionistas. As multinacionais do agro-alimentar ou da grande distribuição são muitas vezes maioritárias. Elas dominam assim os processos e os custos de produção dos seus produtos.
Estas fábricas têm os seus próprios fornecedores. Longe de serem multinacionais, a maior parte são empresas individuais ou familiares: são os agricultores.
Entre os agricultores, a indústria agro-alimentar e a grande distribuição, a lei do lucro é implacável.
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Riba-Côa - Coruja

sábado, 15 de janeiro de 2011

Riba-Côa - Bufo Real

Hora do folhetim - 42

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Nas encostas de declive ligeiro havia gafanhotos por todo o lado, e pastavam grandes rebanhos de carneiros. O capim estava tosado e rente, por isso era fácil encontrar os insectos. Os maçaricões comeram até terem os papos e os estômagos cheios. Ao escurecer já milhares de aves partiam. Não podiam ver-se na escuridão, salvo quando uma delas riscava o disco da lua, como um traço de sombra. Mas ouviam-se constantemente os seus gritos leves. Porém os maçaricões não tinham pressa, pois no Árctico era ainda inverno, e aqui podiam acumular gordura para o caminho até à reserva.
Esperaram uma semana, comeram muito e voavam cada dia um pouco mais para norte. Os seus corpos ficaram outra vez redondos e nédios, e agora, de novo com forças, ardia neles o impulso de acasalamento, como uma febre. No princípio da semana atingiram a ponta da península de Yucatán. Oitocentos quilómetros a norte, do outro lado do golfo do México, ficavam os pântanos da costa da Louisiana e do Texas, atrás dos quais se estendiam, quase até ao Árctico, as pradarias sem fim.


O CORREDOR DA MORTE

... Mas pior que tudo era a carnificina, quando as aves, na primavera, atravessavam o golfo do México, e se deslocavam em bandos pelas planícies norte-americanas.
Estes bandos enormes recordavam aos habitantes das pradarias os pombos-torcazes, e por isso os maçaricões foram chamados “pombos da pradaria”. Voavam aos milhares, em quantidades tais que os bandos mediam às vezes mil metros de comprimento por cem de largura. Quando poisavam, cobriam quarenta a cinquenta acres de solo. A matança era nesse tempo uma coisa inimaginável. Vinham caçadores de Omaha, no Nebraska, e abatiam as aves sem piedade, abatiam-nas literalmente às carradas. As aves mortas eram mesmo empilhadas em carros abertos, que chegavam a precisar de taipais laterais. Quando os bandos eram particularmente numerosos, e os caçadores dispunham de munições em abundância, os carros enchiam-se depressa. Despejavam-se então carregamentos inteiros na pradaria. As aves ficavam ali em pilhas enormes, como se de um monte de carvão se tratasse. Deixavam-nos a apodrecer, e os caçadores enchiam os seus carros com novas vítimas.
Tal carnificina só era possível pela dimensão dos bandos e pela mansidão das aves. Por cada tiro caíam normalmente dúzias delas ao chão. Certa vez um caçador abateu vinte e oito, com um único tiro de uma velha escopeta de carregar pela boca. E do bando que continuou a voar caíram ainda algumas aves mortas, nos mil metros seguintes. Voavam tão cerradas que era quase impossível atirar-lhes uma pedrada sem atingir uma delas...
Ao lado dos muitos fuzileiros que abatiam estas aves apenas para consumo próprio ou pelo prazer de matar, havia caçadores profissionais, que abasteciam os mercados e perseguiam sistematicamente os bandos...
Através de binóculos, os caçadores observavam a progressão do voo... Cada um podia aproximar-se das aves poisadas até uma distância de vinte e cinco ou trinta metros. Uma vez aí, os caçadores esperavam que elas se colocassem na melhor posição de fogo, após o que era disparada a primeira salva. Desorientadas, as aves levantavam voo e descreviam um par de círculos no ar, oferecendo novas oportunidades de tiro. Chegavam, por vezes, a poisar no mesmo local, e este procedimento repetia-se. Com uma arma de tiro semiautomático, um certo senhor Wheeler abateu de uma vez trinta e sete aves. Ocasionalmente podia observar-se pelos binóculos que o bando tinha poisado quatro ou cinco quilómetros mais adiante. A cavalo ou de carro, os caçadores dirigiam-se rapidamente ao seu encontro, e continuavam a chacina...
Nos anos oitenta, os efectivos de maçaricões diminuíram rapidamente...
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Riba-Côa - Mocho Galego

Planeta-Mãe - 31

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ALIMENTAR OS LUCROS
Alimentar as populações é uma actividade lucrativa e durável: sejam quais forem as evoluções futuras, o Ser Humano tem que continuar a alimentar-se para viver. Assim, produzir e distribuir alimentos tornou-se um meio de alimentar os lucros. Toda a organização da cadeia alimentar actual é marcada por esta lógica.

ECONOMIAS DE ESCALA
Tornar-se sempre maior e mais forte é um meio de assumir uma posição de força sobre os mercados. Seja para comprar matérias-primas mais baratas, ou para vender os produtos acabados o mais caro possível, esta estratégia tem uma lógica económica.
Na selva capitalista, onde imperam o instinto predatório e a lei do mais forte, a globalização responde igualmente a uma outra necessidade: reduzir o número de concorrentes, para obter uma posição dominante no mercado mundial. No fim só pode restar um! Se se tratasse aqui dum jogo de sociedade, haveria matéria para rir. Porém hoje é o funcionamento da nossa cadeia alimentar que foi moldada por esta lei da selva. A Vida e a Natureza ensinam-nos que nenhuma entidade é viável sozinha. Mas os actores da economia mundial parece que não conhecem esta regra.
Hoje, a sobrevivência alimentar de mais de 90% da população ocidental está nas mãos de gigantes da economia mundial e liberal: as multinacionais da agro-química, do agro-alimentar e da grande distribuição.
A poder de fusões, aquisições e outras OPA’s, a indústria agro-alimentar tornou-se um sector de actividade maior, em França e no mundo. Algumas multinacionais repartem este sumarento mercado mundial. Os accionistas de Danone, Nestlé e Kraftfood têm bons dividendos atrás deles, e à sua frente.
A lei do mais forte, as deslocalizações, a política da compra em baixa, as recompras selvagens para desmantelamento, são outras tantas práticas que fazem furor no sector há alguns anos. Como todos os sectores submetidos às leis do mercado capitalista, o sector do agro-alimentar está impregnado do medo de ser engolido, do desejo de engolir o outro e da busca perpétua de melhores lucros.
É neste contexto que as confeitarias LU, recompradas pelo grupo Danone há uns anos, se tornaram americanas em 2007. Os empregados das duas últimas fábricas francesas temem ver o seu lugar fechado para deslocalização para países “low cost”. Resposta da nova direcção: a questão não tem actualidade! A actualidade do mundo dos negócios mostra que aquilo que não está na ordem dum dia, pode muito bem passar depressa à ordem do dia seguinte.
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